Agora sou eu a dizer: p'ra essas não ligas tu!
Vá, localização dessa beleza por PM (já sabes que só surfo a Sul do Porto e a Norte de Viana, daí a ignorância)
Registo: Sep 30, 2010 Mensagens: 39 Local/Origem: Arruda dos Vinhos / Santa Cruz
Colocada: Qui, 13 Set 2012 - 14:35 Assunto:
Parabéns Rudas pela tua escrita, sem dúvida que nos prendes ao ecrã de uma forma tão simples, que nos fazes sentir quase todos os cheiros, sentimentos e percalços que descreves! Sempre deixando a vontade de ler a próxima e a outra e a que vem a seguir...
Continua
Pensa em escrever um livro a sério
Abraço para ti e para Santa _________________ redeyessurfboards
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Qui, 13 Set 2012 - 15:24 Assunto:
Poizé caraças,
Tenho que vos agradecer a todos...:
- Aos que leram e também comentaram ou apenas aos primeiros que não fizerem a segunda mas nunca aos que preconizaram a segunda sem terem feito a primeira... WTF?!?!
No entanto e no intuito de - não que o façam... - não me considerarem um gajo porreiro mas sim alguém que dedica algumas horas do seu tempo a fazer-vos a vida no escritório um martírio autêntico via Atitude ou Fb, deixo-vos uma ilustração do meu amigo João num dos poucos dias em que o tal pico da fábula funcionou connosco por perto...
... de facto até estava um pouco mais pequeno que na passada segunda feira mas dá para ter uma ideia do potencial da onda:
Não se vê o telhado do Living Opera e a água não estava tão quente neste dia mas foi o que se arranjou aqui pelos arquivos!
Abração,
Rudas _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Dom, 23 Set 2012 - 15:32 Assunto: The Big Wedn... Thirsday!!!
Olá novamente,
Não sei que idade tinha quando me falaram de um filme em que alguns amigos esperavam - e se preparavam afincadamente enquanto o faziam... - por um dito swell que haveria de personificar ou materializar algo ao nível de uma tempestade perfeita.
Chamava-se 'Big Wednesday' e era passado num local de águas quentes algures pelo Pacífico, onde os corais preenchem o fundo e tornam as ondas mais insanas que as nossas.
Esta semana e por cá, não foi assim.
No entanto e por se adivinhar um mau fim de semana de surf, prendo-vos com algumas linhas de relatos mais ou menos inventivos a que provavelmente já se vão habituando. O móte é o de sempre: as ondas, um ou mais gajos que surfam mal e os receios, dúvidas e pensamentos que os envolvem... somos quase todos nós por assim dizer!
Na quarta feira fui à Magic Quiver buscar o prometido e já aqui referido livro do Pedro Adão Silva que havia reservado ao nosso forista Kanoa.
Tive inclusivé direito à dedicatória da praxe, como se não bastassem os textos e ilustrações que prefazem tal obra... em poucas horas já devorei metade, pelo que nunca é demais agradecer aos que no nosso meio se dedicam a fazer os demais viajar. Para mim e sem dúvida, o melhor escritor de linguagem simples para estas coisas do mar que a nós tanto nos tocam...
Parei pelos Côxos - onde assisti na 1ªfila com o meu mais velho, absortos e perplexos ao binómio de força e poder com que o mar nos consegue sempre surpreender, independentemente dos anos que passem... - e por lá vagueava uma história que um qq italiano havia partido um dos membros superiores... a notícia não revelava o como nem isso tão pouco interessava.
Olhei nas várias direções e imaginei-me, desconfortável, em rota de colisão com algumas linhas perfeitas que se intercavalam com outras menos cândidas... volvemos ao conforto do lar e relembrei o meu receio e nervoso miudinho perante tamanha fúria enquanto assistia na segurança do meu sofá, a um espetáculo de surf passado em Trestles, na Califórnia, ao vivo e a cores, onde algumas dezenas de predestinados faziam da prancha um prolongamento do seu corpo...
Por ser do grupo dos pobres, da minha casa não se vê o mar.
No entanto e por estar - pelo menos por enquanto - no dos remediados, da minha casa ouve-se o mar.
A meio da noite, faminto e sobressaltado, fui ao quintal... o cheiro hipnótico da marezia abundava assim como um ruído ensurdecedor que quase se assemelhava a uma imensa manada de búfalos em fúria e em fuga numa vasta savana africana, em direção a nada que não a mim. Abandonei a escuridão da noite e voltei para a cama.
Ao estarmos inibidos de um dos sentidos mais importantes - a visão - todos os outros permanecem alertas e mandam imagens e mensagens de aviso por todo o nosso sistema nervoso... poucas horas volvidas, os putos foram para a escola e a minha mulher para o trabalho.
Com o estrondo da porta de entrada a fechar, levantei-me vagarosamente - como por norma faço desde que sou doméstico de profissão. O som lá estava... passava atrevidamente pela janela entreaberta da minha casa de banho. Engoli em seco enquanto desfazia a barba e vislumbrava o meu ar aflito e desgastado no reflexo do espelho.
Arrumei a tralha e fui para a esplanada do café da minha cumadre.
Ainda por ali permaneci de costas para o mar alguns instantes, tentando apreciar o meu 1º e madrugador café do dia...
- 'Compadre, o mar está lindo ã???? Mas hj é só para homens de barba rija...' - e nóvamente esta bateu em seco.
Enfrentei então o Oceano. Frontalmente tirei-lhe as medidas. A luta adivinhava-se desproporcional... e eu não pretendia que o fosse. Uma luta pelo menos.
Para mim o surf deve significar prazer... prazer de deslizar, de sentir o odor a iôdo, de destilar reflexos de sol das cores das ondas e o vento na cara. Offshore neste caso. E a verdade é que estava lá tudo e eu não me estava a sentir bem com o meu acobardanço... noutras condições já o pico estaria cheio e comigo a preenchê-lo ainda mais. Mas não naquela quinta-feira.
O mar apresentava-se grande, demasiado, perfeito não o suficiente e pois nem sempre era constante... adivinhava que a água permanecia quente pois a ondulação estava totalmente de Oeste e não de Norte e por isso as esquerdas corriam kilométricas e as direitas mais curtas sempre que a linha esmagava a bancada de areia...
Arrastei-me até ao carro... infeliz por estar tão aquém dos que tanto idolatrei na noite anterior - apesar de consciente da disparidade contextual. Quando me sentei no capôt ainda em êxtase mas já rendido, chegou o Serginho... é um dos gajos que podemos considerar de 'completamente alucinado'.
Persegue sonhos e aparenta viver feliz e despreocupado... vai tendo negócios sucessivos que invariavelmente acabam mal mas persegue ondas, ora aqui por Sta Cruz, ora em França, Espanha ou por onde calha.
- 'Já tive um jeep desses!' - interpelei-o... - 'pena gastar tanto e ser classe 2 não é?'... indaguei.
- 'Ya... mas olha, já a Vito era a mesma cena mas dá para dormir na mesma lá dentro e assim consigo ir a sítios mais radicais...'
- 'Tipo o q está hj aqui em casa...'
- 'Entramos?'
- 'Se tu fores eu certamente não fico cá fora...' - respondi.
Vestimo-nos sob risos nervosos e deixas patéticas, tentanto sem sucesso controlar a ansiedade daquela quinta feira.
Entrei primeiro.
Tenho aquela teoria - uma de entre muitas - que as toneladas de água que anseiam por te atrocidar ficam mais leves à medida que o nº de vítimas vai aumentando. Uma simples operação de aritmética, neste caso de divisão... ridícula sem dúvida, mas confortante certamente.
Dei as minhas primeiras braçadas enquanto assistia bem lá ao fundo ao rebentar de pesadas e sublimemente desenhadas linhas de água profusamente salgada... ao chegar a meio do percurso o mar calou-se.
Remei então o resto de percurso com receio de o acordar... procurei poiso e esperei pelo meu parceiro... em vão pois uma das linhas havia-o arremassado para um atraso de algumas dezenas de metros. Estas entradas são feitas em regime de sprint e há quem não o consiga fazer por distâncias prolongadas... algo que o meu desemprego de longa duração me levou a saber contornar.
Olhei em meu redor e tudo era movimento.
Tal como no dia anterior mas mais belo e polido.
As cores surgiam agora despidas de castanho e as ondas apareciam mais penteadas e simétricas. Tive pena de mim e como tal, mudei de súbito a minha atitude...
Procurei a primeira e remei para o abismo... uma esquerda que demorou uma eternidade a descer. Passei pelo Sérgio em Warp 5. Para logo depois subir para 6, 7 e 8... enquanto devorei secções de olhos esbugalhados.
Dizem os sábios que nos assemelhamos a uns drogados, sempre em pesquisa da preciosa adrenalina. Mais e mais... em doses bem medidas até que por vezes aleija. Aí retraímo-nos um pouco até que chega a altura de voltar a procurar novo incremento.
Surfei, surfei e surfei... tentando nunca passar demasiado para o inside sob pena da relação custo-benefício passar a ser-me desfavorável.
Depois entrou o meu compadre... e mais tarde o já vosso conhecido João, o de outras fábulas. Em comum tinham um profundo resmunganço pelo massacre que havia sido a entrada!!! 10 minutos para um e quase meia hora para outro!!! As ondas, essas, foram-se mantendo... sempre perfeitas e altivas... e repetitivas:
- O drop era - pelo menos para o meu humilde (a bem dizer nestes casos) eu - um jogo mental. Tens consciência que deverás remar muito e bem. Hj em dia até se usa muito o termo 'assertividade' - vou-vos no entanto poupar disso. Certo é que com o embalo que levas, quando chegas à altura do 'tudo ou nada', não há travões que te valham e eis que estás à beira do precipício... há uma luz, mas fica lá bem embaixo.
Muito mesmo... despencas enquanto as quilhas vibram ao desenhar um rastro naquele imenso manto verde.
Diz-me a minha já ida e saudosa década de força aérea que há um conceito de nome 'Point of no return'. É aquele momento em que te lanças pista fora para levantar e a partir do qual já não merece a pena meter travões a fundo pois se o fizeres acabarás com a aeronave fora da pista. Desculpem lá ter achado relevante a comparação... voltemos às ondas.
Chegado à base, as pernas esforçavam-se por contrariar a força centrífuga no bottom turn e ao subir não há perda de velocidade pois a inércia não to permite.
Quase sempre de backside, desenhei longas linhas bem no topo para ficar novamente pronto para mais uma descida. Pelos 'entremeios', de alguma forma o teu cérebro conta as gotas que prefázem o spray que sai tipo jato do rail exterior... e a corrida prolonga-se até ao canal - que infelizmente nesta quinta feira nem sempre o era.
A velocidade aparece por si só permitindo-te assim esquecer a falta de técnica que por demasiadas vezes transparece noutro tipo de condições...
Com a maré a descer, as ondas foram perdendo algum do tamanho exagerado para compensar em consistência e perfeição. Comentámos a 'estranheza' de sempre que somos brindados com um daqueles dias não se sofrer de crowd... apesar do sol, do calor e do offshore. Nunca há crowd e a amizade vem ao de cima... 'vai tu nessa, eu vou na detrás arranca tu...' - coisas do género.
Saí mais de 3h volvidas. Feliz e aliviado. Contente e autoconfiante.
Os carros já abundavam por esta hora e fiz-me ao almoço... só. Apenas com estas minhas memórias que agora partilho contigo.
O meu filho ligou-me assim que chegou da escola e contei-lhe à mesa da tasca da terrinha algumas das peripécias e sensações tal como um puto faria ao acabar de se safar com a filha boazuda da vizinha. De profundo apreço ouvi embevecido um inocente:
- 'vais ver que da próxima vez também chego ao verde!!!'
Descrevi assim parte desta quinta feira de Setembro não sómente para ti.
Será até mais para mim para quando um dia já não tiver braços, atitude ou pernas para estas andanças as relembrar e viver de forma mais ou menos intensa. Ou para se daqui a semanas ou meses estiver a construir algo num local afastado do mar dando assim como concluída a minha faceta de 'caminheiro das ondas', conseguir beber algo do que já tive e já fui... _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Nunca fui um gajo de muitos elogios (nem de dar nem de recebê-los). Reconheço frequentemente o valor acrescentado, que nos faz concluir que alguém foi mais longe. Mesmo sem esperar nada em troca. Porém, na altura de dizer alguma coisa acabo por esboçar um sorriso cúmplice. Estupidamente na esperança de que quem o veja, o leia como "isso foi…nem tenho palavras para o descrever."
Hoje calhou a abrir o tópico e ler as restantes crónicas (?) tuas que tinha vindo a deixar de lado para "ler depois". Adoro ler, mas como é uma das actividades que faz parte do meu "trabalho" acabo por deixar a leitura pessoal para segundo plano. Cheguei ao fim e dei por mim a esboçar esse mesmo sorriso…só que desta vez tenho mais qualquer coisa a dizer, muito ao estilo de uma deixa tua.
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Seg, 24 Set 2012 - 15:57 Assunto:
Alho escreveu:
Cheguei ao fim e dei por mim a esboçar esse mesmo sorriso…só que desta vez tenho mais qualquer coisa a dizer, muito ao estilo de uma deixa tua.
Uma coisa é ler, outra é sonhar.
Obrigado.
Ma friend Alho,
Espero que esse teu sorriso tenha ficado espelhado por largos minutos e q seja com o mesmo dito cujo q te lembres deste teu amigo sempre q um daqueles cacetes mesmo mesmo mesmo à 'Big Thirsday' te persiga por um desses lineups desta nossa pérola lusitana...
Lá dizia alguém que se estivermos acompanhados o peso da massa de água é distribuído pelas futuras vítimas... LOL
1 Sincero obrigado pelas tuas palavras,
Rudas _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Registo: May 19, 2008 Mensagens: 271 Local/Origem: Lisboa
Colocada: Seg, 15 Out 2012 - 18:32 Assunto:
Ha alguns meses que não venho ao forum, ha alguns meses que não tenho surfado, e pra falar verdade ha alguns meses que me tinha esquecido o quanto é agradavel ler os teus textos Rudas. Obrigado pelo momento agradavel que me proprocionaste com a leitura dos teus post. Obrigada e venham de la mais. _________________ Only a surfer knows the feeling!
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Seg, 15 Out 2012 - 18:49 Assunto:
jmcarmo escreveu:
Ha alguns meses que não venho ao forum, ha alguns meses que não tenho surfado, e pra falar verdade ha alguns meses que me tinha esquecido o quanto é agradavel ler os teus textos Rudas. Obrigado pelo momento agradavel que me proprocionaste com a leitura dos teus post. Obrigada e venham de la mais.
Obrigado pelas amáveis palavras jmcarmo,
Independentemente do contexto ou do prazer que é imortalizar via caractéres as sensações que temos ao percorrer ondas ou congelar as ideias de determinado momento, há sempre uma maior valia quando o partilhamos com alguém. E esta é ainda maior quando alguém nos agradece.
Assim que uma próxima surfada o mereça, volto a este tópico... mas com este crowd inerente ao WT, não deve ser para já... _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Sex, 26 Out 2012 - 15:46 Assunto: O corpo é o templo da alma
'Surf = Mente sã'
Foi no dia desta semana e ao produzir a foto acima que alguns destes pensamentos me assombraram. Guardei-os e aqui estão.
Não surfava fazia semanas e a razão é aparentemente simples: havia o crowd afeto ao campeonato, o mar não estava bom por cá e... não tenho tido pica para pegar na prancha e remanescente tralha para me fazer às ondas.
É ridículo apercebermo-nos que quando tempo tempo não temos dinheiro para pranchas e fatos e que as podemos comprar em catadupla quando não temos tempo para as usufruir condignamente.
Ao estacionar e fazer o click no telemóvel apreciei a praia deserta.
Apenas um ou dois pescadores, um mar de cor confortável e eu... com a cabeça a 1000 como infelizmente vem sendo hábito dado a pôrra do desemprego. As ondas partiam perfeitas mas nem porisso sobejamente certas. Uma aqui e outra mais acolá mas que com um pouco de sorte, poderia usufruir de alguns metros de correria parede abaixo...
A ansiedade e nervosinho pré surf vêm sendo avassalados pelo turbilhão de 'e se...', 'o melhor é...', 'tu devias era...' Vesti o fato com alguma apreensão e pisei o areal despido de outras pegadas dada a chuva que sobre ele se havia abatido na véspera.
E tão bem me soube ter os pés descalços afundados naqueles grãos de areia gelados e húmidos. Entrei e já me havia esquecido do bem que sabe o salgado da água a escorrer pela face. O forte offshore balanceou a amena temperatura da água e logo fui prendado com uma série inteira pela frente.
Apesar do ginásio, aqueles minutos de desgaste inicial quase me derrotaram e a única vergonha seria pessoal pois como referi, não havia ninguém por perto. Longos instantes depois logrei chegar ao outside onde me sentei a pensar na vida e a saber que não o deveria fazer.
O mar não perdoa desatenções ... também não está lá para te aconselhar... e tão pouco irá ter pena de ti. Enquanto surfistas estamos lá para apanhar ondas... relaxar talvez... conviver às vezes.
Mas estando a uma distância considerável da praia e ao olhar as arribas, o estacionamento e os apoios de praia que sempre conheci, é inevitável que o passado te volte à mente e o desconhecido, incerto e longínquo futuro te roubem dali as ideias.
A primeira onda apareceu por fim. O swell está a vir de SW e as esquerdas são assim longas e massudas. Remei em jeito de sprint dado o vento SE e consciente da falta de concentração e vontade de surfar daquele dia. Lancei-me ao precipício e instintivamente os pés atingiram o deck no local que deviam, a prancha acelerou e o corpo moldou-se a um bottom clássico e bem colocado. Dei por mim a desenhar linhas sucessivas a uma velocidade incrível com base totalmente instintiva.
Sem raciocínio de qq género, apenas para apreciar a adrenalina inerente à situação em que me havia acabado de meter. E soube-me bem não pensar... não ter que mostrar, não ter outra responsabilidade que não manter-me vivo e feliz.
Surfar por vezes é isso: agir de forma inconsciente em busca de prazer.
Voltei e surfei. Remei e surfei. Respirei muitas vezes ofegante... e fi-lo por não menos que 3h seguidas... apareceu mais malta e falaram do Sporting e da Seleção. Felizmente nunca do estado da Nação.
O caos reina em meu redor e apenas nalguns lugares as coisas se encaixam fazendo sentido... e eu já me havia esquecido que um desses é no lineup. _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Colocada: Sex, 26 Out 2012 - 17:36 Assunto: Re: O corpo é o templo da alma
rudas escreveu:
O caos reina em meu redor e apenas nalguns lugares as coisas se encaixam fazendo sentido... e eu já me havia esquecido que um desses é no lineup.
Pelo menos no meu caso, o lineup é dos poucos sitios onde consigo por alguma ordem nesse caus, que de uma forma ou de outra, nos rodeia a todos nestes momentos de incerteza.
A mim faz-me bem estar no mar e olhar para a terra lá bem longe, como se tudo o que nos aflige estivesse lá, noutro local e tempo.
Como que consigo um distanciamento dos problemas, e pensar com uma clareza que muitas vezes não consigo em "terra", pelas pressões a que estamos permanentemente sujeitos. Não é a primeira vez que a olhar as coisas lá de longe, numa nova perspectiva, novas janelas de animo de abrem, decisões se tomam, e nunca, mas nunca, as coisas parecem tão más como antes as pintava. È isso que o mar é para mim, um refugio.
E não é só para mim, parece-me.
_________________ Cumprimentos,
Sérgio B.
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Ter, 06 Nov 2012 - 22:41 Assunto:
'Never give up'
Ontem fui a Peniche.
Um regresso várias vezes adiado por assim dizer. A demasiada gente do campeonato, a depressão à porta, prancha velha, fato pesado e gasóleo oneroso.
Passei nos Super e nada daquilo me chamou. Fui então meter a conversa em dia com o nosso Prezident, ainda troquei umas palavras com o nosso grande JMaya e passei à vinda e já derrotado por um dos sítios do costume... as linhas estavam pesadas e, surpreendentemente apenas uma pessoa na água com algo não menor que 9".
O mar ainda ressacado não me fez recuar nas intenções e juntei-me ao corajoso surfista, por sinal estrangeiro que me recebeu com ar aliviado e sorridente. Trocámos algumas palavras e comecei a surfar apenas pelo prazer da adrenalina. O mar não precisava de mais valias técnicas que não a do acelerar sem vacilar no drop após ter escolhido a melhor de cada set... repeti a sequência até ficar saciado e a maré inconveniente e volvi a casa. Adiei a sessão da tarde para outro dia e enfiei-me no ginásio combatendo as dores que se foram instalando...
Hoje voltei a Peniche.
Queria mais. O vento matinal fraco e offshore fazia prever uma surfada clássica. Não cheguei a passar da Consolação. O mar não havia descido por aí adiante mas... às 10h da matina o crowd roçava o impossível para os meus parâmetros de pointbreak bem definido:
Preciso de paz e sossego.
Tb da adrenalina oriunda de me desafiar a mim próprio e não da outra que advém da competição. Remar para marcar posição num pico não me convém agora...
Fiquei então perplexo pela exponencialidade que assisti em menos de 24h no que diz respeito a nº de praticantes. O mar roçava o perfeito e recusei-me a desistir. Entrei no carro e deixei o parque de estacionamento repleto para procurar um só meu.
Respirei fundo e carreguei a tralha para um novo horizonte. Ainda verde, bonito qb e com poucas hipóteses de ser partilhado...
Desci o pequeno riacho não me ralando poraí além com o calçado.
O som da água a correr encosta abaixo não era abafado pelas linhas que lá mais ao longe corriam sobre a bancada e a pureza da mesma absorveu todo o meu receio de não surfar, não me divertir e voltar assim mais depressa à minha presente rotina de mandar mails para não mais ser que sistematicamente ignorado ou rejeitado.
Este pico não tinha nome quando o comecei a tratar por 'Piranhas'.
Independentemente do tamanho, do sol, do vento, ao dropar ou a regressar de um snap ou um carve que te deixa mais pendurado, acabas sempre por vê-las lá embaixo à tua espera... a provocar turbulência nas águas deixando-as revoltas contrastando com o glass que acabaste de estilhaçar.
Já lá tive algumas boas sessões, uma delas com um dos meus compadres.
Lembro-me particularmente de uma ter sido numa manhã gelada de tempo cinzento onde o único aconchego advinha das ondas limpas e dos bafos oriundos do interior dos tubos ôcos de direita.
Fomos sós e sózinhos por lá ficámos - tal como hoje mas sem ele - e antes que se me juntasse no pico já eu havia deambulado pelas entranhas de uma diva para logo depois ser cuspido já em êxtase e satisfeito nem 10min passados desde que me havia lançado à água.
Vesti-me e nem esperei pelo set para imortalizar condignamente a surfada...
... desta feita a sensação era a de um puto apaixonado.
Agi enquanto alguém que sabia que ía faturar fortemente até que a voz, perdão, os braços e costas lhe doessem. Nisto do surf há sempre comparações: ou a onda X parece aquela muita conhecida no Havai ou na Indonésia, ou aquela prancha faz-me lembrar a outra que tive em 19... e carquejo... ou aquele tubo deu-me uma sensação orgásmica... e, como dizia acima, paixão é não raciocinar, é agir por instinto desprezando consequências e correr serenamente sobre brazas incandescentes.
A verdade é que com tanta paixão rebentei o meu Ferrari.
A segunda foto contradiz-me pois diz-vos que possuo um Mitsubishi.
As ondas estavam excelentes e surfei-as até à exaustão, por muitas horas apenas com um pão com chouriço e uma cola a preencher o interregno da maré vazia... surfei muito e surfei bem. Sempre no rail, drops por vezes pesados um ou dois chapéus a poucos metros das primas das piranhas: as negras e aguçadas rochas que saem da água aqui e acolá... eu acho que o risco vale a pena, a tal paixão fala mais alto e é o local inóspito e o perigo que talvez a alimente...
Cheguei então ao fim do dia com duas surfadas das que valem a pena - claro que sem crowd - todo rebentado das horas a fio, um ou dois arranhões das duas entradas e respectivas saídas e de sorriso no rosto para enfrentar os mails de merda que me aguardavam neste PC. Ah!
E sem o meu ferrari...
... que com a tesão do mijo me esqueci de tirar do pulso. _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Seg, 12 Nov 2012 - 18:56 Assunto:
E tenho aquela sensação que amanhã vou ter mais um dia destes... _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Registo: Nov 17, 2003 Mensagens: 3240 Local/Origem: Santa Cruz
Colocada: Ter, 20 Nov 2012 - 0:10 Assunto:
'E o senhor candidato... o que vê nesta imagem???' - pergunta-me a psicóloga em tom monocordico.
Se estivesse mal disposto provavelmente algo tipo um besouro, verjeira ou morcego, acabado de conhecer o nosso inevitável e comum destino mas da forma mais dramática e violenta possível.
Se estivesse bem disposto provavelmente algo a ver com formas femininas ou mesmo uma onda.
Venho acalentando algum cinzentismo em meu redor pois enquanto surfista desempregado prestes a rumar para algum local incerto, passei para segundo plano o fato de o mesmo ter ondas surfáveis, picos solitários e águas quentes... em primeiro lugar está o salário não ser miserável e saber se o pagam ao fim do mês.
No meu contexto e ao assistir aos noticiários e reportagens das últimas semanas de qualquer canal generalista, acabo por ficar com aquela nítida sensação de estar a ser escorraçado e assim prefazer o desejo do nosso PM de, mesmo sem o confessar, conseguir reduzir os encargos de manter viva e por cá uma geração de técnicos qualificados que o país soube, e bem, preparar para que outros países usufruam da sua experiência em pról da tal competitividade que se quer por cá... confuso?
A minha mulher também ficou... tirou o dia de folga e usou parte dele em meu proveito. Pegou na poeirenta Canon Eos abandonada desde a nossa lua de mel do ano passado nas Maldivas - julgo que até aqui reportada pelo fórum - e carregou-a para o meu pico pessoal... o tal na terra dos outros.
- 'Pena esta ter desfocado pois vinhas bastante depressa, descontraído e com uma linha bonita'
Eu não vejo isso.
Vejo que cada vez que cá surfo poderá ser a última dado o meu estado pré-emigratório. Também que podem ser as minhas derradeiras fotos de surf. E... olhando bem atentamente, esta foto poderá ser o futuro, o que porcá fica.
O que interessa está focado... o que é eterno e imortal. As rochas que toda a minha vida conheci e onde tantas vezes me aleijei e as ondas que sobre elas se estilhaçam. As rugosidades e saliências que me foram arranhando os pés a cada entrada e cujo atrito me permitiu tantas vezes saltar para o local e no instante correcto. O som não aparece mas é fácil de imaginá-lo só de olhar para a espuma.
Eu lá atrás não passarei de uma memória que residirá em mim enquanto for surfista. Acabo por não ser relevante para o que lá fica pois muitos por lá passaram e outros tantos virão, sou apenas mais um. Certamente dos que mais se divertiram e perceberam a sorte que foi disfrutrar anos e anos a fio de momentos de solidão, prazer e também da boa companhia que por vezes usufruí...
Quando vejo a linha que me espera sempre que abandono o outside com velocidade suficiente para me lançar inside fora todo eu sou feliz e aqui apanhaste-me a sorrir:
Tal snowboarder em fora de pista monte abaixo consciente que aquela linha traçada na encosta virgem é só sua. Desafiando o limiar do rail e da força das pernas, em contraforte com as forças da física que nos tentaram impingir no secundário:
De tempos a tempos tornas-te jovem e inventas.
Tentas imitar os predestinados das revistas e dos filmes e voar para bem longe - sem óbviamente o conseguir. Mas nem porisso esmoreço e acabo sempre por ter uma vontade de para a próxima me aplicar mais. De corrigir a posição do braço, da mão ou alterar o centro de gravidade da tábua através dos pés para melhor aproveitar a pancada seca da onda sob a mesma.
Fico com aquela vontade de saber se terá saído muito ou pouco ou se as quilhas se 'viram do lado de lá'... cenas de putos mesmo passadas que estão quase 4 décadas. E são esses mesmos finos que tento ver a derrapar sem perder o controlo da situação. Qual a força que eles aguentam e quanta pressão tenho eu que tirar de cima do astrodeck para o outro pé para que a manobra me corra bem? Depende...
... da inclinação do plano de água, da velocidade com que saio do snap, da força da onda. Depende de mim. Das rochas e do mar. Se calculei bem a distância e se vou ter sorte.
É sempre necessário ser bafejado por ela quando surfas aqui.
São uns metros que te separam entre o sucesso e o fracasso. Da tua linha à pedra mais próxima... olhar para a maré e adivinhar se é a altura correcta para apanhares as do set ou se as intermédias... sim, que as pequenas nem as vejo, a mim parecem-me sempre desfocadas. _________________ Mais vale uma onda só que mal surfada... ou então aprende connosco em www.casamarela.moonfruit.com
Desde uma vez que sai da água a sangrar mais que um cristo, atirado contra uns calhaus afiados, nunca mais me senti confortavel a menos de... vá, uns 100 metros!
A proximidade daquele calhau... Respect! _________________ Cumprimentos,
Sérgio B.
uma coisa é calhaus a pouca profundidade outra é estarem fora de água! respect _________________ 1 litro de petroleo extraido, transportado e refinado em gasolina custa cerca de 10 centimos . o resto são impostos e margens de lucro
Problem poor people?
Registo: Oct 24, 2004 Mensagens: 7607 Local/Origem: Carcavelos/Évora
Colocada: Ter, 20 Nov 2012 - 13:04 Assunto:
Há uma direita na maré cheia na Parede que parte assim!!! Com o calhau logo ali ao lado a dizer "Olá como está? Mulher e filhos? Bem? Belo, vá aparecendo!!"
chama-se caixote e é preciso nivel. agua pela cintura buraco quilhas partidas fatos rasgados e etc _________________ 1 litro de petroleo extraido, transportado e refinado em gasolina custa cerca de 10 centimos . o resto são impostos e margens de lucro
Problem poor people?
se forem religiosos, rezem muito para me sair o jackpot na sexta, e vão todos pras maldivas à pala do je
@jorgius: cala-te! fechavas isso em copas! não ha maneira de gastares o dinheiro da recruta quando mais se te saisse o euroMix
@rudas: andas muito ocupado para quem a principal actividade é coçar os cherrys. Pq nao mandas curriculos para a oriflame? com a experiência que tens de mar ias vender todos os produtos á base de algas maritimas.
kaka xauxau xoxotas marrekas _________________ YES. I ROCK!
chama-se caixote e é preciso nivel. agua pela cintura buraco quilhas partidas fatos rasgados e etc
Não se estamos a falar da mesma, ou se era por estar pequeno quando lá estive, mas não era assim muito buraco, e apanhei lá uma.
Quanto a quilhas amassadas, sim confere... mas foi a entrar!!
nepia wazza a direita que falas é a "normal". o caixote é so para alguns. _________________ 1 litro de petroleo extraido, transportado e refinado em gasolina custa cerca de 10 centimos . o resto são impostos e margens de lucro
Problem poor people?
Editado pela última vez por Ananas em Ter, 20 Nov 2012 - 22:58, num total de 1 vez
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Colocada: Ter, 20 Nov 2012 - 22:30 Assunto:
Oh ananás, essa secção podia ser baptizada de Paredes'ternos bluff...
Rudas, o meu único reparo é que, apesar de lhe acrescentar uns quantos milhares de palavras, este teu texto vai bem com uma ou duas imagens. Mais do que isso é ceder à corrente que actualmente domina aqui o line up, cheio de grafismos - alguns bem bacanos, é vrdade...- mas que estão para a literatura surfística como os aéreos estão para o surf rail to rail.
Isto era daqueles textos que merecia ser lido com a simplicidade deste último. _________________ A tentar ver a vida por um canudo...
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